Já não estamos no tempo das representações herdadas do século XIX, que opunham o idealismo abnegado do artista ao materialismo calculista do trabalho, ou ainda a figura do criativo, original, provocador e insubmisso e a do burguês preocupado com a estabilidade das normas e convenções sociais. Nas representações actuais, o artista está próximo da encarnação possÃvel do trabalhador do futuro, da figura do profissional inventivo, móvel, apanhado numa economia do incerto, pouco dócil à s hierarquias, intrinsecamente motivado e mais exposto aos riscos da concorrência inter-individual e à s novas inseguranças das trajectórias profissionais. Como se a arte se tivesse tornado um princÃpio de fermentação do capitalismo. Como se o próprio artista exprimisse actualmente, com todas as suas ambivalências, um ideal para a investigação possÃvel do trabalho qualificado de forte valor acrescentado.
TÃtulo original: Portrait de l’ artiste en travailleur – métamorphoses du capitalisme
Vera Borges (Coordenação e Revisão CientÃfica da edição Portuguesa)
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Pierre-Michel Menger é sociólogo, director de investigação no CNRS e Director de estudos na EHESS. Publicou, nomeadamente, o Paradoxe du musicien (Flamarion, 1983) e a Profession de comédien (La Documentation française, 1998).